Regresso às aulas: preparar os imprevistos

Por: Margarida Marrucho Mota Amador

 

Regresso às aulas: preparar os imprevistos | Opinião | PÚBLICO

“A preparação para o imprevisto do ano que se avizinha, semelhante ou não ao anterior, parte em vantagem em relação ao ano passado” BENOIT TESSIER/REUTERS

Preparar o imprevisto é como ter uma folha em branco ou estar num sítio desconhecido. Que recursos temos quando vimos do nada? Do que precisamos para começar não sabendo bem o quê, nem como? O imprevisto é um entrelaçado de muitas coisas e de nada. Não se consegue reproduzir e nunca chegaremos a qualquer cópia fidedigna ou com ligações semelhantes, serão sempre diferentes. Determinantemente diferentes.

É conhecido que no imprevisto a solidariedade é evidente e que o sentido de grupo, de pertença, reúne as realidades próximas. Assim está a ser com o aproximar do novo ano lectivo: preparar o imprevisto, sabendo que o que tínhamos não voltaremos a ter e o que tivemos este ano, não vamos conseguir repetir, mesmo que queiramos. Sabemos que, tal como no passado muito recente, as comunidades escolares e educativas se irão unir no objectivo comum de aprendizagem significativa dos alunos.

O imprevisto é como um novelo que cai ao chão e se desenrola. Quando o voltamos a enrolar, fica parecido, mas nunca igual ao que estava. Esta situação repetida e renovada vezes sem conta leva à pergunta óbvia nesta situação: quantas vezes não deixámos cair o novelo e não voltámos a enrolar o fio? Quantas vezes não compusemos o novelo de modo parecido mas com os fios em sentidos diferentes?

Uma das características do imprevisto é que muitas vezes não conhecemos o contexto. No caso do novo ano que estamos a preparar temos uma ideia do que poderá ser o contexto e já tivemos uma experiência de inovação pedagógica em todos os ciclos de ensino, com os recursos tecnológicos em ênfase, mas não passam de recursos tecnológicos, que sem o professor e o aluno, não fazem nada sozinhos. De que criatividade é tecida este imprevisto? E onde não há recursos tecnológicos? Que interacções são imprescindíveis serem preparadas, cuidadas e acarinhadas? Mais do que computadores, plataformas e redes, que relações devem ser preservadas?

Para enfrentar o imprevisto e voltar a fazer o novelo, todos os processos e actividades de suporte são importantes; mas essenciais são as relações de solidariedade, as interacções entre os diversos agentes educativos que colocam os fios do novelo da forma mais proveitosa em ordem ao objectivo comum.

Tendo presente que já passamos por outros imprevistos no passado, sabemos que a atitude de adaptação e a inovação são simultaneamente importantes. Uma não vive sem a outra. A adaptação leva à abertura de espírito, capacidade para se pôr no lugar do outro e considerar várias perspectivas e hipóteses de resolução de um mesmo desafio. Em conjunto. No conjunto solidário dos agentes educativos que mantém interacções salutares entre si.

Se não conhecermos devidamente e de forma ampla o contexto educativo, onde esta imprevisibilidade do novo ano lectivo se vai desenrolar, podemos ser levados a prever situações irreais, apenas por puro desconhecimento das forças de cada grupo e do seu modo de actuar. Não vamos dar ao novelo uma forma que não é a dele. Contamos com os fios enrolados de uma nova maneira, com a adaptação e transformação necessária e possível a cada agrupamento, escola, externato ou colégio, como acontece em cada novo ano lectivo, e este, que está em ‘banho-maria’, não será excepção.

Com a experiência vivida no passado ano lectivo e com o enorme potencial de conhecimento acumulado nos 2.º e 3.º períodos, a preparação para o imprevisto do ano que se avizinha, semelhante ou não ao anterior, parte em vantagem em relação ao ano passado. Não esquecendo que recursos continuam a ser recursos e que a grande diferença que podemos acrescentar assenta no potencial de colaboração solidária dos vários agentes educativos, desde as direcções de escolas às famílias, com o objectivo de melhor potenciar o conhecimento e o gosto por aprender de cada aluno. Os ideais mantêm-se, mesmo em tempos imprevisíveis.

Fonte do Artigo: 

https://www.publico.pt/2020/08/07/impar/opiniao/regresso-aulas-preparar-imprevistos-1927250

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