Consentimento e sexualidade: esse assunto cabe na escola?

Por: Amana Rochas Mattos

Foto Em Escala De Cinza Com Dois Bonecos De Ação, Um De Madeira Clara, Outro De Madeira Escura Se Abraçando. Gaelle Marcel   Unsplash

Sempre que apresento os projetos de pesquisa sobre gênero e sexualidade que desenvolvo em escolas, seja em congressos científicos, seja em rodas de conversa com docentes e estudantes, uma pergunta se repete: como abordar o tema com crianças e adolescentes? O terreno minado das escolas para os temas de gênero e sexualidade parece ter se tornado mais hostil ao diálogo e à troca nos últimos anos. Direção, professoras e professores temem sofrer perseguições e evitam tocar no assunto. As e os estudantes, por sua vez, seguem fazendo mil perguntas, e as situações conflituosas e mesmo violentas envolvendo gênero e sexualidade continuam acontecendo no dia a dia escolar. O que fazer?

A realização de oficinas sobre esses temas com estudantes do ensino fundamental e médio em escolas públicas no Rio de Janeiro tem mostrado que falar sobre sexualidade (e também sobre gênero) exige conversar sobre a ideia de consentimento com as e os estudantes. Essa necessidade surge de diferentes maneiras, mas duas que têm se mostrado muito presentes. A primeira é que percebemos um aumento na procura pelo nosso trabalho (com oficinas, palestras ou rodas de conversa) quando eventos de violência sexual e/ou de gênero ganham projeção na sociedade e na escola. Crianças e adolescentes falam do assunto, fazem perguntas, compartilham vídeos, fotos, e as e os professores sentem-se muitas vezes “sem recursos” ou sem saber o que dizer ou fazer. A sexualidade invade a escola nessas ocasiões como um tema “difícil” e associado à violência.

A segunda maneira em que essa necessidade surge é nas trocas com as e os estudantes, durante as oficinas. É grande a vontade de falar sobre relacionamentos – e isso envolve relações de amizade, familiares, com as e os professores, e também relações sexuais e/ou afetivas. Um aspecto que sempre surge nessas discussões são as relações de poder presentes nos relacionamentos, assim como reflexões sobre quais seriam os limites na relação com o outro: até onde o outro pode fazer o que quer, ou o que eu posso fazer com o outro…

Percebemos que seria importante discutir gênero e sexualidade trabalhando a noção de consentimento – não a partir de discussões abstratas, mas de situações cotidianas que possam disparar reflexões sobre a importância de ouvir o outro, estar atento/a à outra pessoa, além da importância de poder expressar quando algo é incômodo, constrangedor ou violento. Nesse sentido, observamos algumas regularidades, ainda que cada vivência seja singular. A expectativa social de heterossexualidade parece produzir efeitos distintos entre os sexos. Em alguns momentos, acolhemos a demanda das alunas e realizamos rodas de conversa só com garotas, em que as adolescentes se sentiram mais à vontade para falar sobre incômodos nos relacionamentos com rapazes, trazendo a questão do machismo em exemplos do dia a dia. Já entre os garotos, a exaltação da heterossexualidade associada à agressividade é recorrente, e a “zoação” com estudantes LGBTI é frequentemente valorizada como prova de virilidade. Também observamos um grande desconhecimento (acompanhado muitas vezes de curiosidade) sobre os corpos de garotas e mulheres cisgêneras, e sobre como (e se) sentem prazer no sexo. Vivências da sexualidade fora da norma heterossexual também são assunto frequente entre garotos e garotas, com muitas dúvidas, curiosidades e compartilhamentos de experiências. Nessas conversas, vemos como o debate sobre consentimento articula-se com o tema do preconceito: a objetificação do outro, do corpo do outro, legitima situações de violência e assédio.

Por sua vez, trabalhar o tema da sexualidade com crianças, sem reduzir a questão a relações sexuais genitais, também tem nos levado a discutir consentimento com elas. Isso pode ser feito, por exemplo, conversando sobre os cuidados e experiências com o próprio corpo, e o entendimento que o corpo do outro – seja do/a colega, seja do adulto – é outro corpo. Quando analisamos os dados sobre violência  sexual contra crianças e adolescentes no país, que apontam que boa parte dos agressores são pessoas próximas das vítimas, vemos como é importante que elas possam identificar situações de violência e recorrer a adultos que as escutem e acolham.

Por fim, consentimento é um tema que abre portas para discussões importantes: parceria, prazer, prevenção, troca, escuta. Tem sido um bom desafio trabalhar esse assunto nas escolas, com crianças, adolescentes e educadores/as.

Fonte da informação:  

http://pensaraeducacao.com.br/pensaraeducacaoempauta/consentimento-e-sexualidade-esse-assunto-cabe-na-escola/

Imagem de destaque: 

Gaelle Marcel / Unsplash

Deja un comentario

Consentimento e sexualidade: esse assunto cabe na escola? – Sarraute Educación María Magdalena

A %d blogueros les gusta esto: