A arte de inventar a história

Por: André di Bernardi 

Luciano Mendes

Recentemente, convidado pelo jornal Estado de Minas a escrever uma resenha sobre o livro A primeira paginaa e outros contos mexicanos (Vieñas Abiertas, 2020), de Luciano Mendes, o escritor André di Bernardi conversou com o autor sobre literatura e a construção do livro. Dessa conversa resultou a entrevista abaixo, ainda inédita, que hoje publicamos.

A poesia, de certa forma, permeia alguns dos seus contos. Em que medida ela interfere ou interferiu na feitura dos textos?

Penso que uma das dimensões, ou qualidades, intrínsecas às artes é a transfiguração da realidade. As possibilidades de condensação do mundo – aqui entendido como todos os mundos possíveis, inclusive o onírico – que as artes apresentam possibilita que em cada uma delas, ou em que cada detalhe das mesmas, se pudéssemos decompô-las mais e mais, haja a reprodução/recriação desses mundos possíveis. A literatura permite isso de uma forma exemplar. E, penso, na literatura o texto poético é que leva mais longe essa possibilidade. Neles não apenas as potências da linguagem, como a polissemia, são mobilizadas e continuamente atualizadas, como há também uma condensação de não ditos, de pré-ditos, anteriores mesmos ao pensamento e à linguagem, que permitem pontos de fuga inimagináveis, até mesmo para outros gêneros literários.

O que tento fazer em meus textos, algumas vezes, é trazer essa potência poética, ainda que constrangida e “estabilizada” para os contos, de forma que, eles também, expressem e/ou construam algumas das possibilidades da linguagem, inclusive as de nos ajudar a fizer do não dito, ou do não dizível, ou do mal-dito.

Como surgiu a ideia para o livro. Como foi feita a elaboração e a escolha do tema, dos textos? Quais foram as dificuldades?

A experiência de distanciamento do país (estava no México como professor visitante quando escrevi o livro) e o atravessamento em que ficamos pela ascensão de Bolsonaro na corrida presidencial de 2018 me deu um sentido de urgência para pensar sobre minha própria experiência de brasileiro e de construir e expressar isso de outra forma além daquela que tenho tentado fazer há mais de 30 anos: o texto acadêmico de história da educação. Mas, certamente, busquei fazer isso com as armas que tinha, e uma delas é, sem dúvida, a sensibilidade para o estudo do passado, a descrição e os processos de formação e investigação. Os temas, então, bordejam tais sensibilidades e alguns conhecimentos, além, é evidente de mobilizar memórias pessoais e, num certo sentido, coletivas, ainda que nenhum dos contos expresse alguma experiência que eu efetivamente tenha vivido. Pelo menos não como elas estão no livro!

A posteriori, penso que as duas dificuldades maiores que enfrentei foi, a primeira, no terreno da linguagem e de sua adequação aos contextos e, mesmo, aos personagens (hoje eu construiria algumas das passagens de forma diversa do que está no livro) e, a segunda dificuldade foi relativa a alguns conhecimentos e informações que estão nos contos sobre o México e no conto A primeira página. Neste último caso forma necessárias pesquisas, mas estas, eu bem sei, ainda que sejam bem conduzidas, não resolvem o problema das sensibilidades e das linguagens (os jargões, o vocabulário…) próprio de uma época ou de uma profissão como a de jornalista.

Como você analisa o cenário cultural contemporâneo. Qual a função da literatura nesse contexto?

O mundo contemporâneo, aí situada também a “cultura”, é um cenário de diversidade, pluralidade e explosão de cores, sensações, generosidades, sensibilidades que nos dão medidas sucessivamente alargadas das potencialidades do humano. Mas este mesmo mundo é habitado por uma infinidade de formas de violências, de desigualdades e das mais puras formas de perversidade, que nos mostram também as potencialidades sucessivamente alargada da maldade humana. E, o problema, é que não há a possibilidade de buscar, aqui, apenas uma meia verdade, a metade boa da coisa. Trazer o humano e, portanto, trazer a cultura para o centro da conversa, algo absolutamente imprescindível no momento atual, é tomar consciência disso: não podemos mais achar que há um inumano que habita o humano que pode, e deveria, ser educado e extirpado em direção a uma essência humana boa e generosa. Sinto muito, mas isso não existe. E é, pois, tudo isso que o cenário cultural atual expressa, constrói e atualiza continuamente. Como é impossível separar o joio do trigo, o fundamental é bordejar, pela linguagem, com a linguagem e por dentro da linguagem, essas fissuras do humano na cultura, na economia, nas artes, na educação, na política e em todas as dimensões do humano. Hoje, e sempre, essa é, sem dúvida, uma tarefa fundamental da literatura. Neste sentido, toda literatura é engajada em seu tempo, é política, é construção de realidades possíveis, ainda que apenas imaginariamente possíveis. Mas quem disse que a imaginação é menos realidade do que uma pedra ou uma bofetada?

Quais são suas referências literárias?

É difícil dizer das referências literárias. Primeiro, porque estamos em contínuos deslocamentos e, com isso, também nossas referências se deslocam. Com isso não quero dizer que não haja, ou que não deva haver, aquelas autoras ou aqueles autores de cabeceira. Mas, mesmo a respeito disso, não conheço nenhuma leitora ou leitor para quem a leitura seja uma necessidade vital que não alargue, ou abandone, continuamente as suas referências. Deixar-se atravessar pela palavra tem as suas consequências, e elas não são poucas!

Mas, veja, não digo isso para fugir à pergunta, mas para relativizar a minha resposta. Por muitos anos que trabalhei com crianças e populações pobres e marginalizadas em Belo Horizonte, sendo que eu mesmo venho de uma família enorme e com parcos recursos financeiros. E minhas pesquisas focaram acidade Belo Horizonte no início do século XX e, em seguida, Minas Gerais no século XIX. Charles Dickens foi então, e é até hoje, um autor que é uma grande referência para mim desde então. Suas sensibilidade e perspectivas críticas para falar dos pobres e da pobreza, descobrindo na situação e nos sujeitos potências adormecidas ou desconhecidas, é para mim uma marca fundamental do fazer literário. Doutra parte, as múltiplas possibilidades do texto literário e a maestria da criação em sua enésima potência eu encontrei na leitura de Ítalo Calvino. Como poucos, acho, ele soube reunir, no conjunto de sua obra, formas de dizer do seu tempo que, para mim, tem poucos similares na literatura mundial. Finalmente, o meu interior mineiro, algo que busco inclusive trazer para os meus contos, tem muitíssimo daquilo que Autran Dourado constrói, desconstrói e reconstrói em sua “Duas Pontes”. Em sua obra universaliza, por assim dizer, o interior de Minas que habita em cada um de nós que nascemos na “roça”, ainda que, muitas vezes, essa roça tenha se metamorfoseado de metrópole. São três homens encimados por uma mulher: Adélia Prado. Talvez esteja nela, naquele trânsito que ela faz entre a poesia e a prosa, entre o poema e o crônica, entre o palitar de dentes do amante, desleixado mas amado, e a mãe que cozinha feijão roxinho e batatinha, mas canta, uma das minhas referências importantes do que sejam a sensibilidade e a construção literárias em ação.

Como você definiria o seu estilo literário?

Certa vez eu ouvi, não sei mais de quem nem sei quem escreveu, ou disse, que “estilo é aquilo que dizem que a gente tem depois que a gente morre”. Não penso ter um estilo literário, seja porque minha experiência é muito pequena, seja porque o que almejo seja um trânsito entre possibilidades estilísticas. Não sei se vou conseguir ou se isso será potente e possível naquilo que escrevi ou que estou escrevendo. Quando escrevo textos acadêmicos em minha área, seja sobre uma desconhecida professora primária do século XIX seja sobre alguns dos maiores nomes da intelectualidade brasileira, o meu foco tem sido sempre as experiências desses sujeitos. Captá-las, nomeá-las e, num certo sentido, construí-las dentre de um certo regime de inteligibilidade é o que almejo, ainda que nem sempre eu consiga fazê-lo de forma expressiva ou convincente como eu gostaria. Talvez o meu trânsito para a literatura seja justamente uma busca de regime de inteligibilidade do texto que me liberte do constrangimento das fontes, o carma e a salvação de toda historiadora e de todo historiador comprometidas(os) com a produção de um conhecimento histórico prudente para uma vida decente, para lembrar o título de um livro do Boaventura Souza Santos. Aliás, este é o investimento contido(!) no romance que escrevi, e ainda inédito, A morte do Professor, cuja história se passa, fundamentalmente, em Belo Horizonte no final do anos de 1920 e envolve um grande congresso de instrução pública, as intelectualidade mineira do período e, de novo, a atividade jornalística.

Fonte da entrevista: 

http://pensaraeducacao.com.br/pensaraeducacaoempauta/a-arte-de-inventar-a-historia/

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A arte de inventar a história – Sarraute Educación María Magdalena

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