A desigualdade educacional em meio a promessa do mérito

Por: Daniel Machado da Conceição 

Vola às Aulas Na Escola Estadual Tiradentes. Curitiba, 10/06/2015. Foto: Pedro Ribas/ANPr

A educação institucionalizada propaga muitos valores (morais, éticos, conhecimentos e saberes) de dada sociedade que tem na escola um veículo ideológico de excelência. Um espaço institucionalizado capaz de disseminar os ideais da modernidade e orientar sobre o comportamento civilizatório mais aceitável. Por essa razão, a escola faz parte dos projetos nacionais e, atualmente, transnacionais que orientam seus objetivos para uma formação voltada ao mundo do trabalho, identificando como prioritários para o desenvolvimento da sociedade que hoje é pensada no modelo global.

Ao proferir essa afirmativa, entendo que o papel da escola não parece ter mudado, apenas a magnitude das suas ações deixaram de ser locais para ganhar um sentido global, em um mundo supostamente sem fronteiras, pelo menos, quando falamos de produtos e mercadorias, bem como, dos que participam do meio virtual e das suas atividades correlatas. Devemos ponderar sobre a sociedade e a sua ampliada divisão social do trabalho, acrescentando ao jogo das relações comportamentos que reproduzem a manutenção dos privilégios, da desigualdade social e da falta de oportunidades. Então, será que podemos identificar a nossa sociedade brasileira como republicana? Parece ficar claro que não, porém um princípio mascara ou amortece essa realidade, tirando o foco dos problemas ou das suas incongruências. O mérito como apresentado por Roxana Kreimer no livro Historia del mérito (2000) parece cumprir o papel de projetar os sonhos e metas de uma vida melhor, isto é, uma busca constante por reconhecimento e as suas benesses. A sua aceitação ou convencimento está atrelado ao individualismo e na capacidade de adiar a recompensa. “É porque o mérito é a única maneira de combinar a igualdade e a liberdade numa sociedade onde reina a divisão do trabalho que esse princípio de justiça é tão fundamental quanto a igualdade” (DUBET, 2014, p. 27).

O poder de convencimento do mérito passa pelo que José Machado Pais apresenta em Ganchos, tachos e biscates: jovens, trabalho e futuro (2001), como a crença na profecia da profissionalização, isto é, acreditamos na promessa de mobilidade e ascensão social que supostamente advém de uma maior escolarização e formação. “Em consequência, de profecia em profecia, chega-se à conclusão de que só com formação profissional poderão ser ultrapassadas as dificuldades de inserção” (PAIS, 2001, p. 51) Essa profecia encontra no discurso meritocrático uma divindade que afirma constantemente que o fracasso e o sucesso são consequências das ações do próprio indivíduo. “Sem o mérito, não haveria outro critério além do nascimento ou da sorte para repartir os indivíduos numa escala de estratificação” (DUBET, 2014).

José M. Pais não advoga pela ausência ou retirada da crença, entende que nós seres humanos precisamos acreditar em algo que permita traçar metas, orientar os nossos sonhos e quem sabe até descobrir um propósito para vida. O destaque crítico sobre a crença na profecia está na constatação da internalização da exclusão, isto é, a relação que o indivíduo passa a desenvolver dentro do processo quando os fracassos são maiores que as conquistas. O mérito atribui honrarias no reconhecimento dos feitos realizados, mas também, em contrapartida decreta o destino daquele que afeito a derrota se acomoda, entendendo que o motivo da falta de sucesso é sua incapacidade ou de alguma suposta limitação. Deveria parecer estranho ter de apontar constantemente para esta relação que desenvolvemos com os espaços institucionalizados de transmissão do conhecimento.

A escola ao se constituir como um espaço de poder e ao receber uma função específica se torna desigual, pois tende a valorizar saberes, hierarquizar conhecimentos e selecionar os indivíduos. Na instituição escolar o mérito, que permite a crença na profecia e na sua promessa futura são propagadas com o interesse constante de premiar os mais exitosos e esquecer os fracassados. “Quanto mais se acredita na igualdade de oportunidades, mais se confia à escola a inexaurível missão de realizá-la a cada geração. Mas quanto mais se adere a essa utopia, mais se pensa também que as hierarquias escolares são justas e decorrem somente do mérito individual” (DUBET, 2015, p. 91).

No entanto, a escola que se apresenta desigual na sua concepção e execução, na nossa sociedade continua sendo a única instituição capaz de promover a transformação esperada. Se desejarmos a superação gradual das desigualdades de oportunidades, é preciso lutar para que a escola receba o protagonismo que merece, pois, somente no seu espaço que poderemos pensar uma transformação da própria instituição e, consequentemente, da sociedade.

Talvez por essa razão, mesmo 131 anos depois da Proclamação da República do Brasil continuemos a questionar o papel da escola, o seu propósito e potencialidade junto ao ideal republicano. Como nação não adquirimos uma relação com o saber que permita transformar os indivíduos que conduzirão as mudanças na sociedade, o movimento negacionista nos faz ponderar sobre falhas no processo. Podemos dizer que ainda preferimos ser seduzidos pelo som da melodia do mérito e dedicar uma ascese voltada para crença na profecia do êxito profissional futuro como modelo ideal de sucesso. Enquanto, a escola pregar aos convertidos, continuaremos tratando das desigualdades, das oportunidades e dos privilégios como condições naturais. Uma possível mudança é admitir “que existe uma crueldade intrínseca da competição meritocrática, a educação deve procurar reconhecer e formar os indivíduos independentemente de suas performances e de seus méritos” (DUBET, 2008, p. 115).

Fonte do artigo: 

http://pensaraeducacao.com.br/pensaraeducacaoempauta/a-desigualdade-educacional-em-meio-a-promessa-do-merito

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A desigualdade educacional em meio a promessa do mérito – Sarraute Educación María Magdalena

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