Ensino Remoto em 2020: como estão as/os professoras/es?

Por: Larissa Altemar
Luciana Bizzotto*
Túlio Campos**

Quadro Negro Manchado

 

Estamos no último mês de 2020, aquele que seria o último mês letivo, regado a comemorações escolares, formaturas, entregas de portfólios e boletins. Mês que antecede as semanas em que as crianças ficariam mais tempo em casa, com seus familiares. Mês marcado por reuniões, conselhos, encontros com as famílias das crianças, organização das salas, revisão das experiências do ano e início do planejamento do próximo. Para docentes do ensino privado, um mês de angústia: “Continuarei empregado/a nesse escola?”.

Uma colega do Coletivo partilhou um pouco de como tem sido a rotina de trabalho e os contratos nesse período atravessado pela pandemia.

Eu me peguei, em março e abril, e também em maio, sem saber muito bem o que ia acontecer (e se eu ia perder meu emprego). Até porque eu sou professora extracurricular (…)Triste, complexo, polêmico e tema de amplas discussões durante a pandemia. O ensino infantil sofre, e eu também, porque sei a falta que faz essa possibilidade de estar junto e criando com seus pares.

Curiosamente a maioria dos pontos que definiriam o final do ano letivo regular, estão presentes nesse ano letivo remoto. Isso nos faz lembrar de um dos primeiros artigos que publicamos aqui, no qual citamos Francesco Tonucci, provocando-nos a repensar as relações escolares nesse período de distanciamento.

A expressão mágica que pipocou as avaliações existenciais durante a pandemia foi “a arte de se reinventar”. E foi isso o que as/os professoras/es tiveram de fazer, na tentativa de lidar com a ausência da sala de aula e, ainda assim, estar mais próximos de alunos e famílias. E como se o experimento de estar no universo virtual não fosse desafiador o suficiente, foi preciso também alinhar as diferentes expectativas dos sujeitos envolvidos em torno do que se deseja para aquela experiência.

Em contrapartida, existem outras formas de estar em relações pedagógicas, culturais e de aprendizado, que não pelo ensino tradicional. Embora os desafios da escola sejam enormes e muito ricos, é necessário estar sempre em consulta, com tudo o mais programado possível, porque existe uma expectativa enorme (…). Os pais da escola particular esperam que certas coisas sejam feitas de forma linear, esperada e calculada. Precisamos pisar com cuidado e reavaliar com calma.

A análise da dimensão da experiência das/dos professoras/es no contexto da pandemia não pode ser deslocada do tratamento da educação enquanto política pública. Especificamente na realidade do ensino público em Belo Horizonte, há uma constante reafirmação da Secretaria da Educação ressaltando a importância da manutenção do vínculo com as crianças, alunos e famílias, durante todo o ano. Contudo, tem sido uma manifestação constante de professoras/es a ausência de suporte do órgão público ou a proposição de estratégias para lidar com esse desafio, delegando ao docente o poder da “mágica pedagógica”.

O fortalecimento da rede de ensino público municipal se viu colocado em um lugar em que “cada caso é um caso”, o que causou nas profissionais que estão na ponta da política pública o sentimento de que agora “é cada uma por si”. Enquanto isso, as/os docentes não são consultadas/os se possuem as ferramentas necessárias para manter o vínculo remotamente ou ainda se dominam essas ferramentas. Nenhum treinamento é oferecido de forma estruturada dentro da política pública para lidar com esse momento.

Cabe destacar também que, grande parte das preocupações em torno do ensino remoto estão ligadas à aprendizagem das crianças, o que deixa o aspecto da sociabilidade da escola negligenciado. Uma pesquisa sobre a infância e a pandemia  apontou para o impacto do isolamento social nas relações de amizade das crianças. É preciso dizer também do impacto disso na vida das/dos professoras/es, que vivem a sala de aula não somente como um local de ensino e aprendizagem, mas também do encontro e do afeto.

Tenho muita saudade de todos da escola, principalmente das crianças, trabalhar de casa me fez ver, ainda mais, como a escola é um lugar de fazer amigos, como disse Paulo Freire. Sinto falta do cotidiano escolar, dos meus pequenos grandes amigos, daqueles olhos encantados procurando atentos todas às oportunidades de descobertas e aprendizados. É necessário nos tempos em que vivemos ter esperança por dias melhores e esperançar para dias melhores, como também dizia o mestre Paulo Freire.

Uma profissão que ainda hoje precisa reafirmar a sua importância e expor suas especificidades se viu mais fragilizada no contexto do distanciamento. Muitos dos impactos da pandemia no cotidiano de crianças e professoras/es, que vivenciam ou não o ensino remoto, ainda são incomensuráveis. Contudo, a esperança da chegada da vacina indica possibilidades de retorno às aulas presenciais no ano de 2021. Retomar é o que mais desejamos, mas este é um movimento que precisa ser feito com cautela e responsabilidade, nos inspirando a esperançar, não em uma espera passiva, mas em movimento, como já nos dizia Freire.


O presente texto é fruto da análise de relato de três integrantes do Coletivo Geral Infâncias entrelaçada a reflexões sobre o impacto do ensino remoto para os professores. Agradecemos os relatos de Babita Faria, Gau de Laert e Bella (nome fictício) que gentilmente partilharam conosco suas vivências.

  • Doutoranda em Educação e Inclusão Social, pela Faculdade de Educação da UFMG, na Linha de Infância e Educação Infantil.

** Professor de Educação Física do Centro Pedagógico da Universidade Federal de Minas Gerais e Doutor em Educação.

Fonte do artigo: 

http://pensaraeducacao.com.br/pensaraeducacaoempauta/ensino-remoto-em-2020-como-estao-as-os-professoras-es

Imagem de destaque: geralt / Pixabay

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