Portugal: Estudo de cientistas portugueses reforça o papel da memória celular na resposta ao vírus

Portugal 30 de Janeiro 2021/Por: Rui Frias/Fonte: https://www.dn.pt/

Trabalho de investigadores do i3S mostra que a imunidade celular dura pelo menos cinco meses e pode ser tão ou mais importante do que a conferida pelos anticorpos. Dados podem contribuir para a gestão dos planos de vacinação e influenciar desenvolvimento de futuros fármacos e vacinas

Investigadores do i3S analisaram reação do sangue de dois grupos de profissionais de saúde do Centro Hospitalar Universitário de Coimbra

© Igor Martins / Global Imagens

Na guerra imunitária contra o SARS-CoV-2, os anticorpos têm sido protagonistas privilegiados, mas há um importante papel desempenhado pela chamada imunidade celular do organismo humano que pode conferir uma proteção duradoura tão ou mais importante do que a própria resposta de anticorpos.

O papel das denominadas células T no combate à doença tem sido já descrito em algumas publicações científicas, mas agora uma equipa de investigadores portugueses conseguiu dar um novo passo na aplicação de um método para avaliar a resposta celular funcional associada à covid-19 e destapar um pouco mais sobre a importância destas células T na defesa face ao vírus.

O grupo de cientistas, liderado por Joana Tavares, Anabela Cordeiro da Silva e Nuno Santarém, investigadores do i3S – Instituto de Investigação e Inovação em Saúde da Universidade do Porto, analisou a resposta do sangue de dois diferentes grupos de profissionais de saúde do Centro Hospitalar Universitário de Coimbra perante o estímulo por conjuntos de peptídeos virais, isto é, fragmentos de proteínas do vírus. Um dos grupos era composto por 23 profissionais já recuperados de covid-19 (recuperados há cinco meses, num valor mediano) e o outro integrava 19 profissionais sem infeção.

E os resultados, já pré-publicados na plataforma medRxiv e a aguardar revisão por pares, são encorajadores sobre a potencialidade do uso do sangue para detetar uma imunidade celular face a este coronavírus, tendo permitido descobrir dois biomarcadores da resposta das células T face à presença do SARS-CoV-2. Ou seja, duas citoquinas (proteínas produzidas pelas células) cuja produção é induzida em reação à invasão do organismo pelo novo coronavírus.

O que quer isto dizer? “O que descobrimos é que os indivíduos que já tinham sido infetados produziram dois tipos de citoquinas que podem ser identificadas como fatores de resposta celular ao vírus, a IL-2 e o IFN-y. Essas duas citoquinas, produzidas pelas células do sangue após reconhecimento de bocadinhos do vírus presentes nos conjuntos de peptídeos podem desencadear uma resposta celular funcional perante o vírus”, explica ao DN Joana Tavares, uma das investigadoras principais deste projeto, que recebeu financiamento da Fundação para a Ciência e Tecnologia.

Perante a mistura de mais de 400 fragmentos de duas proteínas dos SARS-CoV-2 – a mais célebre, a proteína Spike, e uma outra denominada nucleoproteína -, 91,3% dos indivíduos recuperados de covid-19 apresentaram níveis de produção elevados da citoquina IL-2 (acima do ponto de referência ou ponto de corte), enquanto 82,6% tinham também taxas elevadas de produção da citoquina IFNγ. Todos os indivíduos negativos apresentaram uma resposta de IL-2 mais baixa e só 5,3% revelaram produção de IFN-y.

Ora, desde logo, este estudo mostra-nos que a imunidade celular face ao novo coronavírus se prolonga por pelo menos cinco meses, numa altura em que se questiona, por exemplo, a durabilidade da capacidade imunitária oferecida pelos anticorpos – com estudos a apontarem para uma diminuição da presença de anticorpos ao fim de alguns meses. Neste ensaio realizado pelos investigadores do i3S, também foi quantificado o nível de anticorpos IgG específicos para o vírus, que evidenciou uma correlação com a produção da citoquina IL-2, permitindo avaliar um perfil mais completo da resposta imunitária.

Os investigadores relembram que já relativamente ao coronavírus da primeira epidemia SARS, em 2003, veio a descobrir-se que “17 anos depois ainda havia resposta celular no sangue face ao vírus, enquanto a resposta humoral (anticorpos) se extinguiu ao fim de mais ou menos três anos”. Ou seja, mesmo sem a presença de anticorpos, o sistema imunitário continua a ser capaz de produzir uma resposta face ao antígeno, acionando essa memória das células T. E o mesmo pode vir a ser válido agora, face a este novo coronavírus.

Para contextualizar: o sistema imunológico possui dois tipos de defesa, denominadas imunidade celular e imunidade humoral. A imunidade celular é mediada diretamente pelos linfócitos (células) T , enquanto a humoral é aquela em que participam anticorpos, produzidos por linfócitos de tipo B. “Dos anticorpos sabemos já, sem dúvida, que alguns são neutralizadores perante este coronavírus. Sobre a resposta celular, sabemos de outros coronavírus que também é importante, mas não sabemos ainda o quão importante, de que forma e por quanto tempo” pode ser efetiva face às infeções por SARS-CoV-2, referem os investigadores.

Uma possível ajuda para a vacinação

A descoberta da equipa do i3S pode ajudar a clarificar essas respostas. Em primeiro lugar, “permite-nos caracterizar de forma simples a resposta imune no âmbito de uma infeção natural”, aponta Joana Tavares. Mas também “comparar com a resposta induzida pela vacinação” e perceber se esta “gera uma resposta celular semelhante à da infeção natural”. “Este tipo de ensaio permite distinguir biomarcadores de resposta celular e caracterizar a imunidade a nível da população”, sublinha.

Eventualmente, até, pode influir nos componentes a integrar nas vacinas ou fármacos desenvolvidos ou ainda a desenvolver contra a covid-19. Esta definição de um perfil de imunidade pode também ajudar na gestão dos programas de vacinação, acrescentam os investigadores, já que “se percebermos que ao longo do tempo as pessoas mantêm uma resposta celular e humoral capaz, podemos estabelecer melhores critérios nas prioridades de vacinação e de eventual necessidade ou não de reforço da vacina”.

A questão da imunidade e da sua duração é, de facto, uma das grandes incógnitas na resposta face ao vírus. Daí a importância deste tipo de estudos. “É fundamental perceber durante quanto tempo as pessoas continuam a ter este tipo de resposta imune e até quando estão protegidas.” Por isso, defende Joana Tavares, a evolução natural deste trabalho desenvolvido pela equipa do i3S poderia ser a criação de um kit para uso laboratorial. “Kits de quantificação de anticorpos já há muitos, mas para a resposta celular não. E era importante incluir essa parte da resposta imune, para uma melhor estratificação da imunidade. Isso permitiria ter um método de deteção rápida de resposta celular funcional.”

Passo a passo, a ciência vai descodificando o vírus e as formas de melhor o combater, mas numa corrida contra o tempo há sempre o risco de desenvolvimentos inesperados. Ou, pelo menos, indesejados. Como as mutações que se vão conhecendo no vírus, em especial as que têm sido notícia nos últimos dias pela maior facilidade de propagação (variante inglesa) ou maior resistência ao sistema imunitário (caso da sul-africana). A farmacêutica Moderna, por exemplo, anunciou já que vai reforçar a sua vacina para enfrentar a variante sul-africana do SARS-CoV-2.

“É um desafio constante para a comunidade científica”, admitem os investigadores, reforçando também por isso a importância de “continuar este tipo de estudos para avaliar se estas citoquinas e estes anticorpos são biomarcadores válidos também para as infeções com as novas estirpes”. Nesta resposta à covid-19, a ciência continua a fazer-se praticamente em tempo real.

Fonte da noticia:

https://www.dn.pt/sociedade/estudo-de-cientistas-portugueses-reforca-o-papel-da-memoria-celular-na-resposta-ao-virus-13295094.html

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