História, solidariedade e o Dia da Mulher Moçambicana: narrativas que educam

Ivangilda Bispo dos Santos1

Jacqueline Maia dos Santos2

O dia 07 de abril é uma data comemorativa para celebrar as mulheres de Moçambique, evidenciando a relevância delas na construção nacional, além de remeter ao dia que Josina Machel morreu após dedicar sua juventude em prol da luta de libertação nacional, quando integrava o movimento Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO). Além de ser uma ocasião para dançar, cantar, vestir capulana e se reunir com as pessoas queridas, essa data oportuniza lembrar, refletir e contextualizar a luta por direitos e respeito nas relações de gênero.

Em razão da pandemia causada pela COVID-19, as autoridades continuam orientando a suspensão das confraternizações. No entanto, mobilizações foram realizadas pelas redes sociais, no ambiente familiar ou em espaços públicos a fim de valorizar as mulheres.

A partir do Dia das Mulheres Moçambicanas, a convite do Ancestre, um coletivo de mulheres, houve um diálogo sobre as mulheres na história de Moçambique, no perfil da Editora Ancestre Ancestral, mediado por Mariana Bracks, professora de História da África na Universidade Federal de Sergipe. Enquanto comentadoras, destacamos a seguir a importância de nos solidarizarmos e estabelecermos intercâmbios com nossas companheiras moçambicanas a fim de continuarmos fortalecendo a luta por um mundo democrático e justo.

Na contramão de uma perspectiva colonial centrada no homem, branco e europeu, várias ações foram feitas ao longo da história contemporânea que contemplam a história regional, nacional ou transnacional envolvendo as relações de gênero.

Em fins do século XX, historiadoras moçambicanas como Teresa Cruz e Silva, Alda Romão Saúte e Isabel Casimiro ajudaram a construir narrativas históricas que consideravam a participação das mulheres nas dinâmicas sociais. Cruz e Silva, em seu texto “A educação da rapariga na Missão Suíça” (1930-1974), por exemplo, chama atenção para a reprodução de práticas que reforçam determinados lugares sociais ao dizer que “Ao moldar as personalidades dos rapazes e raparigas através da educação não-formal, a educação veiculada pela Missão Suíça acabou por reproduzir os modelos de organização onde os espaços sociais das mulheres se identificam com a vida familiar e doméstica”. Apesar de estar se referindo ao desenvolvimento da Missão Suíça, ainda hoje há uma ênfase no papel da mulher nesses ambientes, muito vinculado à noção de sacrifício.

Com a derrota do colonialismo português, houve uma ênfase histórica em narrativas que se dedicassem à formação nacional. Esse enfoque ainda é notado no século XXI por meio de livros como “A mulher moçambicana na luta de libertação nacional: memórias do destacamento Feminino” (2013), de Benigna Zimba, e “Protagonistas da luta de libertação nacional” (2012), de Ana Bouene Mussanhane, que se dedicaram à preservação da memória vinculada à história independentista e à história da FRELIMO, que se tornou um partido político com o fim da colonização portuguesa em África.

A historiadora Benigna Zimba, que é vinculada a Organização das Mulheres Moçambicanas (OMM), afirmou que “Falar da mulher na Luta significa, enfim, historiar constantemente o processo de redefinição do seu posicionamento no decorrer da sua própria libertação e emancipação (2013)”.

Nas últimas décadas, pesquisas realizadas no Brasil também se dedicaram a pensar as relações de gênero no território moçambicano e a reconhecer as mulheres como sujeitos históricos. As produções de Jacimara Souza Santana (2006) e Fernanda do Nascimento Thomaz  (2012), Amanda Santos Carneiro (2018) e Jacqueline Maia dos  Santos (2021) confluem com movimentos diversos a esse respeito. Eventos acadêmicos como o 14º Congresso Mundo de Mulheres a ser realizado em Maputo, capital de Moçambique, convergem para o fortalecimento da luta feminina.

Essa mudança também envolve uma pluralidade de perspectivas sobre o assunto. E mais, a luta da mulher é feita em parceria. Esse processo não é unilateral. É preciso o comprometimento de toda a sociedade independente do gênero e faixa etária. Josina Ziyaya Machel, ativista dos direitos humanos, fundadora do Movimento Kuhluka e vítima de violência física e psicológica, afirmou em uma entrevista que educa seu filho para que ele não seja um agressor.

A juventude também marca presença neste debate em várias frentes. Em uma live organizada pelo Activista Moçambique, fundado em 2015, foi promovido, também no Dia da Mulher Moçambicana, um diálogo com o tema: “ Como lutar pela igualdade de gêneros sem entrar em conflito com a cultura?”Campanhas voltadas para a conscientização da violência de gênero e o descaso das autoridades com os conflitos em Cabo Delgado, que resultaram em várias mortes e prejuízos sociais à população, são algumas das pautas das(os) integrantes do Activista Moçambique.

A divulgação da luta, das ações, das trajetórias e das produções das mulheres moçambicanas, tanto em território nacional quanto em nível global, é um movimento de apoio necessário em um mundo que ainda possui pessoas, instituições e estruturas sociais que sustentam o machismo, o racismo e o preconceito. Nessa caminhada, a narrativa histórica também pode ser emancipadora ao chamar atenção para relações de poder até então naturalizadas.

1Historiadora e mestranda em Educação (UFMG).

2Administradora (PUC Minas), historiadora e mestra em História (UFMG).

Fonte do articulo: 

http://pensaraeducacao.com.br/pensaraeducacaoempauta/historia-solidariedade-e-o-dia-da-mulher-mocambicana-narrativas-que-educam

Imagem de destaque: idilioarte / 26 images

 

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