Angola: “Livros guardados, dinheiro amealhado”

Angola 02 de maio 2021/Por: Manuel Albano/Fonte: https://www.jornaldeangola.ao

Com uma bagagem pessoal de conhecimento invulgar e sem uma formação especializada como bibliotecário, João de Carvalho despertou há mais de 30 anos, em Luanda, o desejo, apaixonado, pelos livros.

João de Carvalho despertou há mais de 30 anos, em Luanda, apaixonado, pelos livros © Fotografia por: Alberto Pedro| Edições Novembro

 

Os anos fizeram de João de Carvalho, das figuras emblemáticas no universo das letras em Luanda, como um dos, senão o mais, antigo dos poucos alfarrabistas do país. A sua história de superação, que leva anos, é centrada na dedicação em prol da literatura e da divulgação do livro, em prol dos amantes das letras, estudantes, pesquisadores, funcionários, até mesmo escritores.

Com uma bagagem pessoal de conhecimento invulgar e sem uma formação especializada como bibliotecário, João de Carvalho despertou há mais de 30 anos, em Luanda, o desejo, apaixonado, pelos livros.
Antigo cliente assíduo da livraria Lello, revelou que sempre procurava por novidades literárias. Um dia, por curiosidade, questionou o gerente da livraria, na época, Ricardo Manuel, quais as razões de tantos livros reservados. Como resposta, lhe foi dito que eram raros e já não tinham reedições. Depois leu, por debaixo dos títulos guardados, o adágio: “Livros guardados, dinheiro amealhados”.

Depois daquele dia nada mais foi o mesmo na vida de João de Carvalho. Durante alguns minutos ficou a meditar na frase e decidiu apostar no negócio. Apesar do desenvolvimento das novas tecnologias de informação, que tem funcionado como um entrave para o negócio, incluindo o desaparecimento dos “tradicionais” clientes, o alfarrabista mantém-se, até hoje, firme no mercado.

Sacrifício diário
Logo nas primeiras horas do dia João de Carvalho monta a bancada, actualmente localizada nas imediações do Comando Provincial de Luanda, quem entra no bairro da Terra Nova, no Distrito Urbano do Rangel, com o auxílio do ajudante.
Com fornecedores diversificados, desde funcionários públicos a modestos pedestres, incluindo alguns coleccionadores dispostos a se desfazerem dos livros, ou pagar dívidas, o alfarrabista tem atendido, diariamente, clientes de várias idades, em particular estudantes. “Acredito que isso acontece devido ao desaparecimento de muitas livrarias, como a Lelo e a Mensagem, ou a falta de mais gráficas no país”, lamentou.

Ao longo dos anos, como resultado desse trabalho, conseguiu construir uma casa e dar formação aos filhos. Hoje, a caminho dos 60 anos de idade, disse já ter tido vários episódios tristes na vida, mas nunca pensou em deixar a profissão. “A maior riqueza é o reconhecimento recebido de muitos que admitem a importância do meu trabalho para parte da sua formação académica”, disse.

Todos os dias, conta, consegue vender mais do que dois livros. Nos dias bons arrecada mais de 50 mil kwanzas. Devido a raridade dos livros que comercializa pode alterar o valor destes. “Alguns já não podem ser encontrados nas livrarias, por isso os clientes não questionam os preços. Há livros que variam dos dois aos 30 mil kwanzas”.
Os livros técnicos e académicos, com destaque aos de medicina, são os mais procurados pelo público. Para fazer a conservação e limpeza, o alfarrabista tem utilizado produtos químicos, como a naftalina, para afugentar insectos e roedores.

“A falta de um espaço condigno ao armazenamento, conservação e tratamento dos livros, a maioria com mais de quatro décadas, tem sido um dos entraves”, disse, acrescentando que ao longo dos anos recebeu promessas de poder ter um espaço com melhores condições, mas até agora nada foi concretizado. Com um público bastante diversificado, João de Carvalho ainda mantém aqueles que são os “tradicionais”, que procuram pelos seus serviços para consulta, compra e até mesmo orientação.

Um dos momentos marcante, disse, foi ver reconhecido o trabalho de anos com um diploma de mérito e honra, pelo contributo no desenvolvimento e engrandecimento da cultura nacional, ao longo de anos, atribuído pelo Ministério da Cultura, Turismo e Ambiente.

João de Carvalho pede um forte investimento do Executivo no sector das Letras, para permitir, novamente, o relançamento dos grandes movimentos literários. Hoje, dos géneros literários, a poesia tem sido a preferência dos escritores, principalmente da nova geração. “A maioria tem desrespeitado as regras gramaticais, pois a poesia é dos géneros mais complexos e difíceis de se fazer em literatura, tem normas que precisam ser respeitadas”, disse.

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