Kindezi e Ubuntu: O pensamento Banto e a EJA

Por: Pedro Henrique Silva¹

Entender a cultura Banto é essencial para entendermos a formação do povo brasileiro. Neste sentido, vale destacar a fundamental contribuição dessas línguas para o modo como falamos a Língua Portuguesa. Contribuições que podem ser percebidas nos diversos níveis da língua seja léxico, semântico e morfológico.

Devemos nos atentar, também, para os princípios filosóficos preservados pelas comunidades tradicionais afro-brasileiras, por exemplo, os terreiros dos candomblés de Angola, os Congados, a Capoeira. Sendo tais comunidades, portanto, locais em que a ética Banto é praticada em oposição ao pensamento desumanizador sustentado por meio da tragédia colonial; as comunidades-terreiros produzem o reconhecimento da humanidade dos africanos e seus descendentes em diáspora. Assim, guiados pelos princípios filosóficos das comunidades-terreiros, defendemos uma educação pluriversal que acolha os diversos sujeitos e suas cosmosensações de mundo.

Neste sentido, os conceitos de Kindezi e Ubuntu são importantes para pensarmos a Educação de Jovens e Adultos (EJA). De acordo com a noção de Kindezi, todo ser humano é um sol vivo e é função, portanto, da comunidade ascender este sol, contudo, sendo tal noção entendida a partir de uma perspectiva dialógica, pois ajudar o sol do outro a brilhar também faz com que o meu brilhe (FU-KIAU; LUKONDO-WAMBA, 2000 apud Njeri). Dessa maneira, pensamos uma noção de humanidade centrada em outro conceito oriundo das filosofias de terreiro, qual seja, o Ubuntu. Traduzido pelo provérbio “sou porque somos”, o Ubuntu é centrado no reconhecimento da humanidade do outro, na não aceitação das diferenças como desigualdades.

Queremos aqui evitar algumas arapucas armadas pelo pensamento colonial que retiram a potência dessas filosofias. Logo, evitamos as leituras romantizadas que, como lobo em pele de cordeiro, leem o ubuntu como exclusão do conflito, ou mesmo como modo para fazer os funcionários se unirem para aumentar a produção de uma empresa enriquecendo, com isso o patrão. Também rejeitamos interpretações iluministas do conceito de Kidenzi, neste sentido colocando o educador como quem detém a luz para iluminar o outro, concepção que também aparece no canto da sereia da noção de empoderamento.

Entendemos que somos moldados a partir da experiência de morte empreendida pela aventura colonial. Sendo a colonialidade presente nos modos como nos relacionamos, nos produtos culturais que consumimos, bem como na educação que recebemos. Dessa maneira a manutenção das diferenças como desigualdades estrutura a nossa sociedade.

Os(as) educandos(as) da EJA, sabemos, têm em comum a negação de diversos direitos, dentre os quais o acesso à educação e, não raro, nas salas de aula estes sujeitos não ocupam centralidade no processo de aprendizagem. Vemos nisto a negação da humanidade destas pessoas, o eclipse do sol interno que é traduzido, muitas vezes, em auto ódio, depressão e outras doenças do corpo-mente.

Podemos dizer, portanto, que queremos pensar uma EJA que tenha os seus sujeitos como centro. Neste sentido, pensar a partir das noções de Kidenzi e Ubuntu é reivindicar a humanidade que nos é diariamente negada, é perceber nos saberes tradicionais africanos e afro-brasileiros possibilidades de cura-cuidado frente à produção da vida como desencante, frente à tristeza covarde-fatalista que nos impõe o fim do mundo, mas não o fim das situações de opressão. Por fim, queremos uma EJA pluriversal, co-letiva e (por que não?) feliz!

 

¹Professor da rede pública de ensino, atuando com Educação de Jovens e Adultos (EJA) em contexto de privação de liberdade. É mestre em Educação e Docência pela Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais (FaE/UFMG), bem como graduado em Letras/Licenciatura em Língua Portuguesa. É, também, iniciado nas tradições do candomblé de Angola na comunidade-terreiro Casa de Cultura Lodé Apará.

Fonte do artigo: 

http://pensaraeducacao.com.br/pensaraeducacaoempauta/kindezi-e-ubuntu-o-pensamento-banto-e-a-eja

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