Mulheres e literatura

Por: Mariana Tabosa

“A América é a pátria da vagabundagem”. Kerouac me cospe uma dessas e pensa que sairá impune. Tem tempo que gosto de ler os beats. Quando não estou relendo poetas garotas, é com os garotos beats que gosto de passar as minhas horas. Tem sido assim: poesia, leio mulheres, romance, contos e etc., leio homens. Não, isso não é um plano.

Andava pensando em escrever sobre Kundera e seu donjuanismo a la dime novel, mas às vezes me parece uma aventura vazia to be a man. Daí quando vejo, estou querendo analisar os sonhos daquela personagem feminina kunderiana que parece supérflua, mas é na verdade quem decide tudo. Questionei-me muitas vezes o porquê de trazer à minha biblioteca tantos homens e tantos personagens machistas – tal adjetivo está desgastado; o esticamos sem cuidado, mas ainda é o que temos!

Ainda não sei bem, mas tenho algumas suspeitas. Como bem disse Virgínia, “quando o assunto é controverso – e qualquer questão que envolve sexo é –, não se pode esperar a verdade. Só se pode mostrar como se chegou a ter a opinião que se tem” (Woolf, “Um teto todo seu”, p.12). Bem, a tal frase que abre este texto foi como um espelho que refletia uma falta de liberdade que sinto para criar como um beat, apenas por ser mulher. Eu sei, andamos desgastando esse discurso também, mas ainda não o esgarçamos desordenamente.

Veja, sou mulher. Mãe de um garoto. Escritora. Lembrei que poucos meses antes de engravidar andava planejando fazer a Pacific Crest Trail. 4.264 km do México ao Canadá. Sou uma mulher de espírito livre, vagabundo, andarilho. Para Kerouac ser vagabundo na América não estava fácil. Aqueles tempos não mais vangloriavam vagabundos que poderiam se tornar ilustres e distintos homens: Benjamin Franklin, Whitman, Jesus, Buda. Em comum têm o fato de serem homens vagabundos, não vadios, com orgulho.

Se eu quiser colocar uma mochila nas costas para experimentar cozinhar e dormir no deserto, a despeito do tempo histórico, terei o perigo. Se eu quiser ser um vagabundo, no masculino, precisarei saber ainda mais coisas banais e perderei meu precioso tempo de filosofias no deserto tentando manter a minha vagina intacta. Ok, mas isso não pode parar uma mulher; não pode. Precisamos acolher esse limão e fazer uma boa gin tônica (não gosto de caipirinha), senão nunca deixaremos de acreditar que a reclusão de “um teto todo seu” e o dinheiro são a nossa única saída. Sorry, Virgínia, seu livro é essencial, mas eu preciso andar para escrever! Preciso estar no mundo, vagabunda.

Andando pela cidade, de mochila nas costas e contemplando, serei perguntada muitas vezes se estou perdida ou precisando de alguma coisa. Pessoas disponíveis, apenas querendo ajudar. Afinal, uma mulher sempre precisa de ajuda para andar sem rumo com as suas próprias pernas. Se para os homens a solidão lhes parece uma condição à masculinidade, para as mulheres é dado o privilégio de nunca estar sozinha! (Contém ironia).

Sou mulher. Mesmo. Sempre quero provar do mundo vagabundo. Vejam aí como soam os adjetivos elogiosos vagabundo, vadio e malandro, quando a gente mete um feminino: vagabunda, vadia, malandra. Não ligo. Quero ser mesmo esse gato sem rabo (gata me soa como um elogio barato), mulher na literatura. Raw.

Quero ser o gato manx sem achar que isso um dia vai passar. Mulheres e literatura precisam sempre causar estranhamento. Sempre.

Pacific Crest Trail e outros caminhos são possíveis. Perambular. Perambular para escrever e para criar um filho. À solidão feminina não cabem verdadeiros vazios. Daqui tiro as poesias. Um caminho só e para frente.

 

Imagem de destaque: PxHere

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