Ensino remoto: os mundos se misturam

Por: Marcelo Silva de Souza Ribeiro1

Um dos acontecimentos decorrentes do ensino remoto emergencial, que vem se dando no contexto da pandemia de Covid-19, é a confluência entre o mundo escolar e o mundo doméstico. Sobre essa mistura de mundos há equivalência no já tão propagado home office, onde a vida laboral permeia a vida privada.

Esses intercruzamentos de mundos têm criado importantes desafios para professores, estudantes e seus familiares, uma vez que desvelam (e agravam) as desigualdades sociais presentes na sociedade brasileira, a precarização da condição de trabalho docente, os déficits de aprendizagem e o adoecimento físico e mental.

Para ilustrar os desvelamentos decorrentes dessas misturas de mundos no âmbito do ensino remoto, traremos três histórias criadas a partir das nossas experiências enquanto docente e pesquisador. Em seguida, refletiremos sobre o lugar que a escola pode ocupar a partir desses desvelamentos.

Julia é uma professora da educação infantil e nos diz sobre a sua saga no ensino remoto.

Com certeza tenho trabalhado muito mais do que antes. E não só no que diz respeito à carga horária, mas também em relação às demandas em termos de preocupação. Eu acompanho 25 crianças e com quase todas eu tenho que me comunicar via WhatsApp, mediado por seus pais. É um trabalho árduo porque os horários são muito relativos e isso faz com que eu esteja praticamente dia e noite e durante toda a semana com a atenção voltada para elas. Eu sou uma professora de contrato temporário, assim como uma parte significativa de minhas colegas. E isso também implica dizer que preciso arcar com o pagamento de uma internet melhor, além de ter comprado um novo celular porque o antigo não aguentou o tranco. Mas sabe que eu terminei aprendendo a mexer num monte de programas que eu desconhecia?! Agora sei produzir e editar vídeos, além de ter criado um perfil no Instagram para compartilhar meus conteúdos. A questão é que já ouvi colegas dizerem que eu ando trabalhando também para essas redes sociais.

“Eu nem vou fazer mais o Enem este ano”. É o que diz Zeca, um jovem de 18 anos, egresso de um colégio público. Sua narrativa é a seguinte:

Eu terminei o ensino médio no ano passado e cheguei a fazer cursinho este ano, mas me sentia muito cansado e desanimado. Já foi bem difícil concluir o ensino médio remotamente. A gente não aprende o que devia. Uns fingem que estão ensinando, enquanto outros simulam aprender. Nem se ensina mesmo e nem se aprende de verdade. E lá em casa para estudar é às vezes um inferno. Isso porque todos dividem um mesmo computador, tem muito barulho com meus irmãos em casa e com os latidos de cachorro da vizinhança, além dos afazeres domésticos que divido com minha mãe. Ela precisa sair para trabalhar. Lá em casa a gente só tem minha mãe para sustentar os quatro filhos e eu sou o mais velho. Daí comecei um cursinho popular, também online, só que juntou todos esses problemas com um desânimo. Cheguei até sentir um forte ardor nos olhos. Eu desisti. Sei que não tenho condições. Agora penso em trabalhar, mas também não sei em que. Eu até tinha pensado em pegar a moto de um amigo emprestada para ser entregador, mas muita gente está desistindo porque com o preço da gasolina nem isso compensa mais. Nem… nem…

Olívia é uma mulher guerreira, dessas que sabe o que é “matar um leão todos os dias”. Sobre sua vida de mãe, esposa e estudante, ela nos diz:

Eu sou mãe de três filhas, sendo que a mais nova tem um aninho. Sou também esposa e curso o último ano de Pedagogia. Lá em casa tem apenas um computador para as minhas filhas estudarem. Eu divido o celular com o meu marido para poder cumprir as atividades acadêmicas. Sei bem o que é essa coisa de ensino remoto. Outro dia morri de vergonha porque esqueci o microfone ligado em plena aula enquanto reclamávamos da conta de energia. Em relação às minhas filhas, até tento ajudar as mais velhas em alguma tarefa escolar, mas admito que não sei muito bem mexer no computador e no final das contas quem termina me ajudando são elas. Eu sonho com as meninas voltando a frequentar a escola ao tempo que tenho medo por causa da Covid. Sinceramente não sei bem qual a melhor opção. Para dizer a verdade, parece que desenvolvi algum tipo de ansiedade. Não tenho conseguido dormir direito e me percebo mais assustada com as coisas. Enquanto a gente vive toda essa loucura de pandemia, tenho tentado focar no término do meu curso para logo arranjar um emprego, mas sei que vai ser uma outra luta. Terei que lutar contra o desemprego.

As histórias de Julia, Zeca e Olívia, ainda que criadas, poderiam também trazer outras faces, talvez amenas e prazerosas. Seriam histórias que retratariam possibilidades diferentes de desvelamento no que concerne às misturas de mundos. Não há dúvidas quanto a isso. Contudo, essas nossas três histórias lançam a atenção para os acontecimentos de uma boa parte da população do país.

O ensino remoto, pelo menos para uma significativa parte da população, se configura nessa mistura do mundo escolar com o mundo doméstico em sua escassez, em sua falta, em seus adoecimentos, em seus desânimos, em suas desistências, em seus fingimentos, mas também desvelam lutas e, acima de tudo, desvela o reconhecimento do valor e da importância da escola para os alunos, professores e familiares.

O ensino remoto, que misturou esses mundos, pelo menos na condição que foi dado, desvelou e ampliou as desigualdades sociais, mas paradoxalmente explicitou o valor e o lugar da escola para a sociedade, além de ter embalado críticas aos discursos que prometiam resolver os problemas educacionais via soluções online e até mesmo críticas aqueles que bravejavam a favor do homeschooling como uma política generalizável.

 

1Dr. em Educação. Professor do Colegiado de Psicologia da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf). E-mail: marcelo.ribeiro@univasf.edu.br


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