Livro: Educação Como Prática da Liberdade

Livro: Educação Como Prática da Liberdade       

Autor

Paulo Freire

Não há educação fora das sociedades humanas e
não há homem no vazio. O esforço educativo que
desenvolveu o Autor e que pretende expor neste ensaio,
ainda que tenha validade em outros espaços e em outro
tempo, foi todo marcado pelas condições especiais da
sociedade brasileira. Sociedade intensamente cambiante
e dramaticamente contraditória. Sociedade em
“partejamento”, que apresentava violentos embates
entre um tempo que se esvaziava, com seus valores,
com suas peculiares formas de ser, e que “pretendia”
preservar-se e um outro que estava por vir, buscando
configurar-se. Este esforço não nasceu, por isso mesmo,
do acaso. Foi uma tentativa de resposta aos desafios
contidos nesta passagem que fazia a sociedade. Desde
logo, qualquer busca de resposta a estes desafios
implicaria, necessariamente, numa opção. Opção por
esse ontem, que significava uma sociedade sem povo,
comandada por uma “elite” superposta a seu mundo,
alienada, em que o homem simples, minimizado e sem
consciência desta minimização, era mais “coisa” que
homem mesmo, ou opção pelo Amanhã. Por uma nova
sociedade, que, sendo sujeito de si mesma, tivesse no
homem e no povo sujeitos de sua História. Opção por
uma sociedade parcialmente independente ou opção por
urna sociedade que se “descolonizasse” cada vez mais.
Que cada vez mais cortasse as correntes que a faziam e
fazem permanecer como objeto de outras, que lhe são
sujeitos. Este é o dilema básico, que se apresenta, hoje,                                                                             de forma iniludível, aos países subdesenvolvidos — ao
Terceiro Mundo. A educação das massas se faz, assim,
algo de absolutamente fundamental entre nós. Educação
que, desvestida da roupagem alienada e alienante, seja
uma força de mudança e de libertação. A opção, por
isso, teria de ser também, entre uma “educação” para a
“domesticação”, para a alienação, e uma educação para
a liberdade. “Educação” para o homem-objeto ou
educação para o homem-sujeito. Todo o empenho do Autor se fixou na busca desse
homem-sujeito que, necessariamente, implicaria em
uma sociedade também sujeito. Sempre lhe pareceu,
dentro das condições históricas de sua sociedade,
inadiável e indispensável uma ampla conscientização
das massas brasileiras, através de uma educação que as
colocasse numa postura de auto-reflexão e de reflexão
sobre seu tempo e seu espaço. Estava e está convencido
o Autor de que a “elevação do pensamento” das massas,
“o que se sói chamar apressadamente de politização”, a
que se refere Fanon, em Los Condenados de la Tierra, e
que constitui para ele uma forma de se “ser responsável
nos países subdesenvolvidos”, começa exatamente por
esta auto-reflexão. Auto-reflexão que as levará ao
aprofundamento conseqüente de sua tomada de
consciência e de que resultará sua inserção na História,
não mais como espectadoras, mas como figurantes e
autoras.

Nunca pensou, contudo, o Autor, ingenuamente,
que a defesa e a prática de uma educação assim, que
respeitasse no homem a sua ontológica vocação de ser
sujeito, pudesse ser aceita por aquelas forças, cujo
interesse básico estava na alienação do homem e da
sociedade brasileira. Na manutenção desta alienação.
Daí que coerentemente se arregimentassem — usando
todas as armas contra qualquer tentativa de aclaramento
das consciências, vista sempre como séria ameaça a
seus privilégios. É bem verdade que, ao fazerem isto,
ontem, hoje e amanhã, ali ou em qualquer parte, estas
forças destorcem sempre a realidade e insistem em
aparecer como defensoras do Homem, de sua
dignidade, de sua liberdade, apontando os esforços de
verdadeira libertação como “perigosa subversão”, como
“massificação”, como “lavagem cerebral” — tudo isso
produto de demônios, inimigos do homem e da
civilização ocidental cristã. Na verdade, elas é que
massificam, na medida em que domesticam                                                endemoniadamente se “apoderam” das camadas mais
ingênuas da sociedade. Na medida em que deixam em
cada homem a sombra da opressão que o esmaga.
Expulsar esta sombra pela conscientização é uma das
fundamentais tarefas de uma educação realmente
liberadora e por isto respeitadora do homem como
pessoa.

Este ensaio tentará um pouco da história, dos
fundamentos e dos resultados deste empenho no Brasil.
Empenho que custou a seu Autor, obviamente, o
afastamento de suas atividades universitárias, prisão,
exílio. Empenho de que não se arrepende e que lhe
valeu também compreensão e apoio de estudantes, de
intelectuais, de homens simples do povo, engajados
todos eles no esforço de humanização e libertação do
homem e da sociedade brasileira. A estes, entre os quais
muitos estão pagando na prisão e no exílio, pela
coragem da rebeldia e pela valentia de amar, oferece o

                                                Autor este ensaio.

Santiago,
Primavera de 65.
PAULO FREIRE

                                                Fecha 2020-07-22

                                                Fonte da imagem:

                                                amazon.com.br

                                                 Para baixar o livro, clique no link:

https://cpers.com.br/wp-content/uploads/2019/09/5.Educação-como-Prática-da-Liberdade.pdf

Deja un comentario

Livro: Educação Como Prática da Liberdade – Sarraute Educación María Magdalena

A %d blogueros les gusta esto: